quarta-feira, 23 de abril de 2014

O valor do intelecto


Prefiro pessoas inteligentes às habilidosas. Valorizo mais uma ideia do que a precisão da técnica cirúrgica. Julgo mais interessantes os escritores que os bailarinos. Admito.

Mas deixa eu contar pra vocês o que isso pode desencadear numa criança extremamente sensível. A criança tem cinco anos e desde a barriga me ouve dizendo que vai pra Harvard. Nunca teve o "privilégio", ao menos comigo, de ser bebê. Sempre o tratei de igual para igual. Mesmo vocabulário, mesma rapidez de raciocínio, mesma lógica empregados por mim eram exigidos dele. Nunca o enxerguei frágil, em construção. O tratei como se estivesse emocional e intelectualmente pronto. Acabado.

Sempre respeitei suas limitações físicas. Mas perdi a paciência com suas limitações de raciocínio. Exigia mais. Mais velocidade, mais destreza, mais teorias, mais memória. E ele, que só precisava do meu amor, se agarrou ao que eu amava e me entregou.

Ele só queria ser amado pela mãe.

E o corpo? As habilidades manuais? A coordenação motora fina? Essas eram subcategorias pra mim. Menos importantes e menos valorizadas. Ele engatinhou, andou e pedalou no tempo certo. Mas pra isso não fiz a mesma festa do que quando ele conseguiu resolver um problema simples.

Aos 2 anos já "lia de memória" todos os livros da sua biblioteca. E não eram poucos. Sempre participou ativamente das discussões familiares com colocações pertinentes. E o que eu consegui com isso tudo? Um menino muito inteligente, claro. Mas criei, inconscientemente, uma criança de cabeça enorme e corpo mirrado (é preciso conhecê-lo para perceber).

Ele só queria se sentir amado.

Em questões de habilidade física ele tem cinco anos. E, intelectualmente, ele tem muito mais. Digo isto depois de tê-lo submetido a uma série de testes específicos que revelaram "altas habilidades" em todas as áreas do conhecimento. É o que os especialistas chamam de superdotação completa. De posse do laudo fiquei assustada, amedrontada, confusa, culpada. Procurei outros especialistas, li uma dúzia de livros sobre o tema. Neguei que meu filho fosse portador de necessidades especiais, diferente. Aos poucos, fui relendo os livros, percebendo que ele se encaixava nas descrições apresentadas e iniciei meu processo de aceitação.

Hoje, conhecendo um pouco mais de pedagogia, neurologia e psicologia, percebo que agredi o desenvolvimento natural do ser humano, que é andar, falar e depois pensar. Prejudiquei enormemente suas conexões cerebrais ao exigir que ele pensasse antes que tivesse se botado de pé. Inverti a ordem natural das coisas.

Sou grata por ter percebido isso, e por ter a chance de oferecer uma experiência diferente ao Francisco. Sei que as marcas que deixei no Artur não serão apagadas. Mas estou trabalhando arduamente para que sejam minimizadas. Estamos investindo em esportes ao ar livre, minha sala de estar ganhou um colchão inflável para a prática de saltos e tenho me policiado para elogiar cada pequena conquista física.

No fundo, eles só precisam se sentir amados.

3 comentários:

MANÃ MANÃ disse...

Oi Paula!
Pelo visto vc faz ao contrário de mim!
Qdo o Chico ainda estava na barriga, apareceram no US umas tais de Golf Balls, fui pesquisar e surtem, corria o risco de ele nem existir.......decidi que não pesquisaria mais nada na internet.
Qdo fui amamentar ele tive alguns problemas, ouvi absurdos das avós.
A partir dai decidi que agiria pelo meu instinto, pq como vi muito partos de animais e a algumas fêmeas criarem seus filhotes estabanadamente e tudo dar certo no final.
Tanto isso aconteceu que qdo ganhei aquele
Iivro Criando Meninos, nem abri.
Claro que procuro ajuda especializada qdo acho que é necessario, mas acho que ser só mãe já é coisa pra caramba.......
Relaxa menina........vc não precisa ser perfeita pra ser amada!

Sonia disse...


Oi Paula
Quanto sentimento nisso que vc escreveu, até me fez chorar...
Estamos aqui para andar, andar, andar... o mundo anda Paula. E através das nossas andanças vamos aprendendo ... sempre

Paula Bertoli disse...

Melissa, quanto mais eu tomo consciência das coisas, mais eu me sinto responsável pelo meu entorno. Não abro mão dos meus instintos, mas eles estão totalmente permeados da minha história! Beijos!