segunda-feira, 5 de maio de 2014

As mães, os filhos e os alimentos


A criança e a comida. Assim como a relação com a mãe, a criança parece estabelecer uma relação de amor e ódio com o alimento, que aparentemente não tem explicação.

Meus meninos nunca foram gorduchos. Eu, particularmente, não gosto de criança muito gorda. Acho que ser saudável anda na contra mão de ser rechonchudo. Mas...

Desde que nascem, as crianças precisam das mães para ser alimentadas e parece que com o desmame, transferimos grande parte do nosso sucesso como progenitoras para uma alimentação que julgamos “adequada”.  Aqui entra qualidade, quantidade, procedência, sustentabilidade da cadeia produtiva, logística reversa, ou seja, um sem fim de variáveis de acordo com o grau de sanidade mental da mãe.

Com o Artur, eu com toda tendência ao fanatismo que já confessei anteriormente, fui inflexível no quesito amamentação exclusiva. O garoto nasceu com baixo peso. Eu, tal qual uma treinadora de atleta olímpico, o acordava religiosamente a cada 2 horas para que mamasse. Essa rotina de 24h, vividas a intervalos de 2 horas, durou exatos 2 meses. O garoto não ganhava peso como o esperado. Eu já havia me consultado com uma enfermeira especialista em amamentação (recomendo!) que me garantiu que ele estava sugando corretamente e que eu estava produzindo leite. A pediatra me apoiava na decisão de não utilizar nada que não o meu próprio leite. E assim seguimos. Ele chorando muito, com refluxo, baixo peso. Mudamos para a rotina de 3 horas e o peso lá, sempre abaixo do esperado.

Aos 6 meses introduzi as papinhas de frutas e o peso começou a deslanchar. Aos 7 meses eu estava querendo uma orientação sobre como esgotar o leite materno para quando precisasse me afastar dele por períodos um pouco mais longos, voltei a procurar ajuda especializada. A enfermeira, após 40 minutos com uma esgotadeira elétrica tentando me ordenhar, conseguiu extrair escassos 15 ml de leite. Não preciso nem falar do tamanho da minha culpa, né? Saí aos prantos para comprar uma lata de leite, mamadeira, essas coisas. Voltei para casa, preparei uma boa quantidade do leite artificial, e ele mamou com gosto, tudinho! Meu bebê chorão sumiu. A fome cessou.

De lá para cá sempre fiz o necessário para que ele comesse. Até hoje temos uma relação difícil com a comida. O problema, claro, é meu. Por mais que eu tente me convencer de que os momentos que passamos juntos, com ele no meu seio, não tinham apenas a finalidade de formar fígado, baço, neurônio, pulmão... Mas sim de mostrar pra ele que eu estava sempre ali, que eu era sua mãe, que ele poderia contar comigo (desde que não fosse como ama de leite!), que naqueles momentos eu estava me doando para que ele pudesse se desenvolver, enfim... Por mais que conscientemente eu saiba de tudo isso, tem uma coisa que não consigo mudar: eu deixei meu filho passar fome por 7 meses!

Nunca cedi a caprichos de “qualidade”. Na nossa casa só comemos alimentos preparados por mim (ou por alguém de muita confiança), que conheçamos a origem, com o mínimo de gordura, o mínimo de açúcar, o mínimo de sal e o mínimo de processamento possível. Não consumimos produtos que contenham corantes, conservantes, estabilizantes, adoçantes. Isso dá um trabalho danado, claro. Mas faço com o maior prazer!
Porém, o Artur, prestes a completar 6 anos, ainda não se comporta bem à mesa. Levanta, no mínimo, umas 400 vezes durante a refeição. Demora muito mais do que o suportável para se alimentar. Derruba comida para todo o lado como se tivesse 1 ano de idade. Isso tudo me irrita demais, e ele parece se alimentar disso. Parece precisar que eu me importe com ele a ponto de perder o controle.

Graças a vida, com suas inúmeras surpresas, há 1 ano chegou o Francisco e eu precisei tirar um pouco os holofotes do Artur. Isso foi muito saudável para nós dois. O Francisco é outra pessoa, outro momento e outra história. Com este eu não tive muita escolha já que o pós-parto foi intenso. Passei por uma cirurgia para reparar uma perfuração intestinal quando ele tinha 5 dias de vida. Ele não pôde ser hospitalizado comigo e ficou sem receber leite materno neste período. Tive muitas dificuldades no pós-operatório, entre elas, a diminuição na produção de leite. Péssimo prognóstico para quem já tinha um passado mal resolvido com a amamentação. Mas a maturidade traz algumas benesses, entre elas a capacidade de aceitar o que a vida lhe dá. E consegui lidar muito bem com a necessidade de complementar a mamada do Chico com leite em pó. E assim seguimos.

Entre umas alergias alimentares, pouca rejeição, muita experimentação e muito prazer, tento construir com o Francisco uma relação saudável com a comida. Agora estamos naquela fase louca do movimento (que todos os bebês passam por volta de 1 ano de idade) e o meu caçula está pouco ligando para meus dotes culinários. Sabem que ainda não me deixei abalar? Claro que me esforço para que ele se alimente, deixo que coma sozinho, dou laranja para chupar no meio do jantar e tudo vira uma grande sopa de laranja, inclusive ele. Meu modo de encarar este momento parece estar colaborando para que as coisas transcorram com mais serenidade e maior rapidez. Hoje já alternamos dias com mais sucesso e outros nem tão legais em termos de quantidade. E seguimos!

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