quinta-feira, 29 de maio de 2014

De menina a mulher



Uma amiga querida diz que mulher não tem bochecha, quem tem é menina. Não sei por que hoje eu acordei com ela rondando meus pensamentos.

Acredito que existam inúmeras maneiras da menina ascender à mulher. Incontáveis processos. Diversos caminhos.

Mas a maternidade é, certamente, o mais rápido. Ela simplesmente te lança a outro patamar.  De uma hora para outra, você perde suas bochechas. Um filho coloca sua cara a tapa. Arranca seu pedestal. Desaparece com seu umbigo.

Do nada surge uma vida, um ser humano totalmente inacabado, e imediatamente você passa a acreditar em milagres. E, meio tonta com a quantidade de alteração hormonal que tudo isso trás, morrendo de medo de fazer tudo errado, de ser incapaz, de ser incompetente, você se levanta e faz. Você simplesmente faz.

Alguém precisa do teu colo e da tua bronca. Do teu olhar e do teu soltar. Do teu carinho e do teu puxão de orelhas. Do teu exemplo e da sua força. E como saber a medida de cada coisa?  Ninguém sabe.

Um filho é, inicialmente, muito trabalho físico, exaustão, cansaço, força, vigília. Depois começa o trabalho de descobertas, de ajudar a conhecer o mundo, as pessoas, a cultura, os valores, a justiça. E, para sempre, é alguém que habitará nossos sonhos mais coloridos e fará nosso coração se estraçalhar com qualquer ameaça a sua integridade.

Ser mãe é cruzar a linha que separa a ignorância da sabedoria em segundos. É aprender para ensinar. É não saber o que fazer, mas fazer mesmo sem saber. É nunca mais fazer um sanduíche sem pensar em outra boca. Não mais descascar uma fruta em causa própria. Jamais se atrever a comer a última bolacha do pacote.

A maternidade tira suas bochechas e você nem percebe. Afinal, que importância isso tem agora? Você tem muito mais que forma para se preocupar. Você precisa ser conteúdo.

E a palavra vida ganha uma nova conotação. Como se até agora você estivesse em estado de sonolência. Como se os seus olhos não enxergassem com nitidez, seus ouvidos não captassem todos os sons, suas mãos não sentissem todas as texturas, seu nariz não fosse capaz de perceber todas as sutilezas de aromas. Seu sexto sentido toma corpo!

E, nunca mais você desejará aquelas bochechas. E, mesmo que deseje, elas não voltarão. Você passou para o outro lado da ponte e ela se desfez. Agora não tem volta, você é mãe.

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