quinta-feira, 8 de maio de 2014

Eu tenho medo, e você?


Jair Rodrigues morreu hoje, 75 anos. Gabriel Garcia Márquez morreu ontem, 87 anos. José Wilker morreu anteontem, 69 anos. Ayrton Senna morreu semana passada, 32 anos.  Morremos todos os dias e ainda assim agimos como se jamais fossemos morrer. Curioso isso!

O Artur descobriu que somos finitos cedo. Aos 3 anos me perguntou se eu iria morrer. Eu respondi que sim. O diálogo seguiu com outra pergunta importante. “E o pai?” Respondi afirmativamente. Ele, sempre muito rápido, prosseguiu: “eu também?” Confirmei.  Logo veio sua conclusão: “todo mundo vai morrer”. Sim filho todos vamos deixar de existir, ao menos do modo como existimos hoje.

Desde então ele tem medo de perder sangue, porque sabe que o líquido rubro é necessário para nos manter vivos. Tem medo de sentir dor, medo de ficar doente, medo de que peças de Lego sejam sugadas despercebidamente e acabem no seu pulmão, que seu coração pare de bater, de ter câncer... E não é porque terá que ficar sem brincar nestas situações (o que eu acharia bem normal). E sim porque estes episódios o aproximam de sua finitude. Não queria que ele estivesse acordado para isso tão cedo!

Outro dia ele chorou, chorou, chorou e chorou. Aparentemente sem motivo. Quando eu fui conversar ele me disse que estava triste com a morte. Que não quer se separar das pessoas que ama e que, além disso, ele nem sabe como é a vida lá no céu. “E se lá não pudermos correr? E se eu tiver que morar sozinho dentro de uma estrela? E se a estrela for pequena? E se eu tiver outra mãe?”

Eu respondo que é normal termos medo do desconhecido, mas que ele não tem que sofrer com isso agora. Afasto-me e meus olhos enchem de lágrimas.

Sussurro, para que ele não possa ouvir... Eu também tenho medo e, desde que você nasceu, ele só aumentou filho. Tenho medo de falar besteira quando você me enche de perguntas, tenho medo de te expor demais à vida, tenho medo de te poupar demais, de desmaiar e não ouvir você me chamar à noite, de trabalhar além da conta e desperdiçar nosso tempo juntos, de adoecer e não poder mais cuidar de você, de morrer e seu pai colocar outra pessoa para ser sua mãe, de que você perceba todos os meus medos...


Mas me recomponho, acaricio seus cabelos, esboço um sorriso,  finjo que sei o que estou fazendo e sigo preparando nosso jantar.

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