quarta-feira, 14 de maio de 2014

Eu vi o rosto da depressão, tomamos chá juntas, dormi ao seu lado e deixei que partisse



Após ter encarado um câncer do marido no primeiro trimestre de gestação, ter o intestino perfurado na cesárea, ter sido separada do meu bebê recém-nascido com 4 dias de vida para passar por nova cirurgia e ser proibida de dar colo para o Francisco por 30 dias, desafiei a vida e afirmei: “nada mais pode me acontecer!”.  Aí veio o universo, com toda serenidade de quem já viu muitas figuras com a mesma ingenuidade que eu, e deu um sorriso maroto.

Comecei a me sentir prisioneira de mim mesma. Vivia num cárcere sem muros, sem amarras, sem cadeado, mas sem chance de escapar. Sim, elucubrei estratégias de fuga, mas elas não funcionaram. Tentei não sentir aquilo, mas senti. Pensei que algo estava errado comigo, mas esperei que passasse. E não passou. E os dias e noites eram eternos.

E tudo ficou chato. E as coisas que antes importavam, passaram a não importar mais. Vaidade? Foi substituída pelo pudor de permanecer vestida. As cores foram embora, os sorrisos desapareceram, nada parecia fazer sentido. Comecei a me arrastar pela casa. Até executar o movimento de caminhar era difícil. A vida não tinha o menor sentido.

As pessoas em volta me sentiam diferente. Mas não quiseram se meter.

Meu marido, que sempre teve que lutar com meu topete, agradeceu a folga. 

Aí um dia resolvo falar com a minha mãe. Ou, nem resolvo, mas falo meio sem querer. Ela diz que acha que preciso ver um psiquiatra (obrigada mãe!). Concordo. Francisco já tem mais de dois meses. Já era hora da melancolia pós-parto ter passado.

A psiquiatra confirma as suspeitas. Sim, é depressão! Atordoada, descubro que 15% das puérperas são acometidas deste mal. A médica prescreve uma medicação.  Eu, certa de que a ciência tem seu mérito, inicio o tratamento sem pestanejar. Qualquer efeito psicotrópico é melhor do que viver nesta agonia, penso (e rezo para estar certa dessa vez).

Os amigos querem ajudar. Com a maior boa vontade do mundo me chamam para um sem-fim de atividades. Por desconhecimento, querem me animar! Imagina eu, que tomava banho pra cumprir agenda, indo a um desfile de moda? Alguém chama uma pessoa em plena crise asmática para uma festa? Um paciente com pneumonia recebe convite para um coquetel de abertura de uma exposição descolada? 

Meu ideal de mensagem era um banner: Estou doente. Me deixa quieta. Estou tratando, vai passar. Mas enquanto não passa, respeita minha clausura, por favor!

Nunca tive vontade de agredir os meninos, mas tive vontade de abandoná-los. Não fui ríspida, fui indiferente. Quando eles pediam atenção, eu pedia que ficassem quietos.  Um pensamento muito recorrente era que se eu morresse os problemas acabariam e eu me libertaria daquela vida. Eu não queria sentir aquilo.

Sim, tenho outros casos de depressão na família. Sim, já tive episódios-relâmpago de comportamento fora da curva. Sim, tenho medo de enlouquecer.

Segui com o tratamento e fui melhorando. Importante pontuar aqui que mantive a amamentação durante o processo. Apesar da vontade nula de executar esta tarefa, algo me empurrava para permanecer no aleitamento materno. A psiquiatra me perguntava: “você quer continuar amamentando?”.  Eu respondia: “não”. Ela insistia: “você continuará amamentando?”. Eu dizia, “sim”.  A escolha da medicação adotada levou em conta o baixo risco para o bebê e (obrigada cosmos!) o Francisco não apresentou alteração alguma no período crítico, primeiras três semanas, nem após.

Melhorei tanto que fui ouvir outros psiquiatras, neurologistas... Voltei a me sentir confiante e comecei a questionar a necessidade do antidepressivo. Fiz testes com doses menores. O neurologista, recentemente, me convenceu de que estou blindando meu cérebro com esta droga. Dei a mim mesma o prazo de um ano, que termina em julho, para decidir se continuarei com o remédio.

Certamente recomendo ajuda profissional a todas as mães que percebem que algo está errado. Não dá para sair dessa sozinha. Família, amigos, fé, tudo isso ajuda. Mas a química, no meu caso, transformou o cenário com uma competência indescritível. Não tem como criar filhos saudáveis, se a mãe está doente!

* Nota de rodapé para o maridão: O Mauricio sempre me apoiou, sofreu ao meu lado, teve medo junto, e me manteve de pé. Obrigada amor, você é incrível! 


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