quarta-feira, 21 de maio de 2014

O papel dos pais na escola


Por correr sangue em minhas veias, por acreditar que sou responsável pelo meu entorno e, além disso, ser uma mãe muito presente, me permito ficar indignada quando eu bem entender. Estou há tempos com a pulga atrás da orelha com a professora de Educação Física da escola do meu filho mais velho. Pra começo de história ter educação física com 3 anos de idade me parece até meio cruel, mas ok. Eis que o Artur nunca engoliu a dita cuja e eu nunca dei bola. Mas, ao final de um ano escolar de reclamações persistentes fui surpreendida por um filho que fez questão de não presentear a tal professora. Isso fez acender a luz vermelha do meu alerta de mãe. Todos os funcionários da escola foram lembrados, zeladoras, porteiros, secretárias... menos ela.

Claro que meu primeiro pensamento foi de que eu tinha negligenciado meu filho. Não dei ouvidos porque não sou do tipo que resolve as coisas pelos filhos. Deixo que se virem. Se após muitas tentativas ainda permanecem em dificuldade, aí sim vou olhar de perto. E foi o que aconteceu neste caso, mas demorei um pouco para me atentar a isso.

Desde então venho dando pequenos toques para a escola, falando de coisas que acho estranhas e que não entendo o propósito. Ao mesmo tempo interrogo o Artur para saber do andamento das atividades. Agora ele já não fica mais de castigo e não tem reclamado das aulas, acho que passou a se sentir incluído. Mas, desde o inicio ele deveria se sentir incluído, ou estou errada? Continuo incomodada com as práticas, a acomodação da tal professora e as coisas parecem não mudar.

Imagino muitas crianças desperdiçando um tempo precioso com atividades sem sentido. Pelos relatos do Artur, coisas absurdas vinham acontecendo. Como o circuito das segundas-feiras, que era pura distribuição de materiais, divisão dos alunos em grupos de 4, e apito a cada 5 minutos para troca de estação. E o que era feito em cada estação? Brincadeira livre! Entendam por brincadeira livre, entre outras coisas, um segurar o colchonete e o outro ficar dando soco!

Aliás, brincadeira livre foi a tônica de 2013. Daí quando eu questionava a coordenadora sobre a atividade, ela ficava nitidamente incomodada com a informação. Certamente ia conversar com a dita professora. As coisas mudavam nas próximas semanas e inevitavelmente voltavam ao ponto de partida.

Em 2014, como a tal “brincadeira livre” já estava muito manjada, ela inventou uma nova modalidade, o “circuito livre”. Novamente, após 3 meses de observação, cansada de ter que fazer isso novamente, fui até a coordenadora. Encontrei a mesma cara de interrogação, um misto de espanto e desconforto. Me mantive cortês, o que de fato luto para fazer em situações como esta. Adivinha o que aconteceu na outra semana? Um circuito totalmente diferente e orientado para a faixa etária deles. Respirei aliviada, mas cresceu em mim a certeza de que professora que só trabalha sob pressão da coordenação não pode continuar nesta função.

No dia seguinte procurei coordenadora e diretora. Não estavam disponíveis. Resolvi escrever um email. Fui mais incisiva do que nos meus comentários anteriores. Usei palavras duras para descrever a professora, mas que, para mim fazem todo o sentido. Segue um trecho do que escrevi...
...
Ela nunca se importou em envolver os diferentes (Artur incluso nos diferentes). O Artur precisa muito de ritmo, de ajuda para aprender a controlar o corpo, aprender a usar os movimentos ao seu favor. E não, não é qualquer ordem que o envolve. É preciso ter algo mais. É preciso encantá-lo e conquista-lo. É preciso convencê-lo. Feito isso, garanto, ele e todas as crianças que não estão no modelo esperado, darão o seu melhor!
Sou contra a ditadura das crianças na escola. Nunca fui e nunca irei até a escola dizer o que deve ser feito. Esta não é a minha praia.
Mas sou adepta da ditadura do ensino amoroso e responsável, do professor satisfeito em ajudar cada criança a encontrar o seu melhor. Sei que este não é o caminho mais fácil, mas é o que eu busco para os meus filhos.
...
Não vou colocar o discurso inteiro porque não quero expor ninguém. Mas fiquei muito surpresa com a reação da diretora da escola. Me ligou e pediu uma reunião. Fui recebida por uma figura de cara fechada. Cobrando explicações pelo que eu havia escrito. Dizendo, com sua reação, que eu não me encaixava mais na escola. Chegou a me perguntar, ao final da conversa constrangedora, se eu estava disposta a renovar os votos com a escola. Estou até agora tentando digerir tudo aquilo.

Afinal, se eu reclamei é porque eu acredito na escola. Porque quero ajudar a construir uma escola melhor. Porque sei que seres humanos são imperfeitos. Porque sei que é impossível controlar tudo o que os professores fazem, ainda mais na educação infantil, onde as crianças ainda não tem muito conhecimento do que deve ser feito e, portanto, faltam subsídios para críticas.


Enfim, passei de indignada a decepcionada. Esperava, sinceramente, gratidão pelo meu alerta. Afinal, não faço isso apenas pelo meu filho. Mas por todas as crianças que podem estar sendo prejudicadas por uma atitude negligente quando poderiam estar desenvolvendo domínio corporal. Empreendi um tempo escasso, na minha agenda de mãe do século 21, na elaboração do email e me dei ao cuidado de esclarecer, por duas vezes, que os meus apontamentos eram parciais, pois partiam de relatos do meu filho. 

É fácil ter um discurso de abertura ao diálogo. Não foi o que encontrei quando ousei dizer que uma professora, que nunca teve queixas e apresenta um planejamento impecável, não está desenvolvendo um bom trabalho. E sim, questionei a atuação da coordenação e da diretoria a respeito disso. E qual o problema?

3 comentários:

Iviane Susi disse...

Amiga...
Ótima reflexão. Também me pergunto sofre a eficácia da "Ed. Física" para os pequenos.

Mas o mais triste mesmo foi o convite para você se retirar da escola, mesmo que velado.

Pelo jeito, não entenderam muita coisa...

... disse...

Paula querida!
Bem vinda ao clube dos que lutam por um novo olhar pela Educação de qualidade!

O Paulo Freire chamava isso de inédito viável, inédito porque nunca aconteceu e viável porque é possível!

Veja bem, o mundo mudou, as pessoas mudaram, as cidades mudaram, as relações mudaram… E, no entanto, a Escola continua a mesma!

Uma instituição que persiste no planejamento igual para todas as crianças, como se todas devessem atingir todos os objetivos. Uma instituição que se nega ao diálogo, que não se permite ser questionada e que por tão ditadora, considera que não erra…

O aluno, por sua vez, vítima de um sistema de ensino falido, é sempre o culpado. Culpado por não aprender, culpado por não dar certo, culpado porque o planejamento da professora não se concretizou!

Sinto muito pelo constrangimento que você se colocou… Mas você fez o certo, pediu reunião, questionou… Cabe à Escola dar conta do que ouviu e se possível reinventar o propósito da aula.

Agora, quanto à aula de Educação Física, ela é necessária sim, desde que preparada para a idade das crianças…

Um beijo,
Day
PS: Aparece lá na Interpares e a gente toma um café e debate um pouco mais esses problemas escolares...

Paula Bertoli disse...

Queridas Ivi e Day, obrigada pela força. Este mundo está tão louco que às vezes fico meio perdida... beijos!