domingo, 18 de maio de 2014

Tempo de ser criança


Luto pelo direito a infância vivida de forma plena e respeitosa. Acredito ser esta a única forma de erradicar atrocidades, criminalidade, abismos sociais, e construir um horizonte melhor. Quero que meus meninos sejam respeitados no seu direito de subir em árvores, comer terra, tomar banho de lama, edificar castelos com cobertores, montar e desmontar 200 vezes suas torres, deitar olhando para o céu e ficar fantasiando com o formato das nuvens. Não ouso contar para eles que o mundo é mau. Não me sinto no direito de destruir sua esperança precocemente.

Eles são tão criativos, tão cheios de vitalidade, tão dispostos a resolver qualquer coisa. Terão todo o tempo do mundo para dominar outros idiomas, decifrar números obscuros, aperfeiçoar técnicas, ter pressa, cumprir agenda. Hoje quero que levem seu prato da mesa até a pia, que vistam suas cuecas, que deem conta de comer sua comida, que escovem os dentes, que calcem seus tênis. Desejo que sejam capazes de voar como águias, correr como guepardos, pular como pumas, escalar como macacos e sorrir como crianças.

Quero que saibam que com paciência e determinação somos capazes de embarcar nas mais incríveis aventuras, imaginárias ou não. Que brinquedo é tudo o que dá para brincar, isso inclui pedaços de pau, lençóis, caixas, potes de iogurte, papel, colchão velho e toda sucata disponível. 

Preocupo-me em remover os obstáculos da casa e deixo que a brincadeira fique por conta dos garotos. Não é necessário muita intervenção. Eles mesmos sabem do que precisam e como se organizar. Eu fico por perto para as emergências, senão é fé no anjo da guarda e na capacidade deles de resolverem pequenos conflitos. Como a diferença de idade é grande aqui em casa (quase 5 anos), o tipo de brincadeira dos dois é diversa. O Francisco, que ainda tem 1 ano, prefere brincar sozinho. Já o Artur, prestes a fazer 6 anos, quer aventuras mais elaboradas e em grupo. Mas no fim, entendem as diferenças e se acertam.

Brincando eles aprendem a Ser, a Conviver, a Fazer e a Conhecer. E não são estes os quatro pilares apontados pela Unesco para a educação para o século XXI? Então por que entupir nossas crianças com uma agenda avassaladora? Por que exigir tanto do seu, cheio de possibilidades, intelecto em formação? Por que não deixar que sejam autores do seu próprio destino? Por que trabalhar tanto para comprar coisas caras? Como almejar um futuro diferente se transformamos a infância num trailer da idade adulta?


Nota: Talvez não tenha mais nas livrarias, mas o livro Sem tempo para ser criança: a infância estressada, do David Elkind, faz mergulhar um pouco mais fundo no tema. E, para quem quiser conhecer um pouco mais do autor, tem vários artigos disponíveis online, um link é:  http://educationnext.org/much-too-early 

Um comentário:

Cris disse...

Amei sua reflexão... vou parar para refletir também..
obrigada!