quarta-feira, 4 de junho de 2014

Seis anos!



Outro dia mesmo rompeu minha bolsa um pouco antes da hora e fui submetida a uma cesariana indesejada e mal elencada, que eu, como mãe de primeira viagem, não soube contestar. De qualquer maneira foi muito bom ver o rostinho do meu primeiro filho, embora suas feições não fossem exatamente as apresentadas nas revistas. Ele era pequeno, magro, seu rosto tinha apenas uma grande boca. Feio, mas eu o amei com forças que eu nem sabia que existiam.

Tivemos um bom tempo juntos, a aproximação inicial durou 22 meses intensos, até eu voltar a trabalhar. E foi o melhor investimento que pude fazer até hoje! Preparei todas as suas refeições, comprei todas as frutas, legumes e verduras que ele consumiu. Cuidei pessoalmente da sua roupa, dos seus calçados, da sua rotina, dos seus hábitos. Tentei parecer, para ele, uma pessoa melhor do que eu sou de fato. Fui obcecada demais e, certamente, dei corda para uns bons anos de terapia que ele terá de encarar. Mas amei tanto, e espero que o fato de ter amado demais possa se um paliativo para os meus erros.

O Artur sempre foi um garoto precoce. Falou aos nove meses. Tiramos a fralda antes de 1 ano e meio. Fez a primeira viagem sem os pais ainda antes de tirarmos as fraldas. Andou de bicicleta aos dois anos. Hoje credito grande parte dessa pressa a uma ansiedade louca que eu tinha de cumprir etapas. Como se eu estivesse numa competição com sei lá o que.

Além de não ser fisicamente um Apolo, meu filho mais velho é uma das criaturas mais difíceis de lidar com as quais já cruzei. Teimoso, prepotente, cheio de manias, detalhista, exigente e insubordinado. Se sente o próprio Rei Artur. Só para citar suas características mais marcantes.

Temos personalidades muito próximas. E deve ser por isso que conviver com ele consome tanto da minha energia. Como ele, eu também sou filha mais velha. E, conscientemente, não quero repetir padrões de comportamento. Mas repito. Queria que a carga dele fosse mais leve que a minha, mas quando me dou conta, lá estou eu acrescentando umas pedrinhas a sua mochila.

Se eu pudesse dar qualquer presente para o Artur hoje, eu daria seis anos mais aerados do que eu dei. Quebraria todos os nossos relógios e viveria o tempo das nossas necessidades. Apagaria todas as vezes que eu pedi que ele acabasse com isso de uma vez por que eu tinha que ir logo. Não esperaria que ele terminasse uma refeição em 20 minutos por conta da agenda que eu tinha que cumprir. Não exigiria dele o comportamento de um lorde aos dois anos de idade. Teria sido menos intransigente com sua personalidade em formação e mais complacente com suas limitações.

Os últimos 72 meses formam o arsenal de dias mais recheados de aprendizado, descoberta e doação da minha vida. O Artur ressignificou tudo ao meu redor, da minha relação com meus pais ao que realmente tem importância neste mundo. Não há nada que tenha passado incólume a sua chegada.

Espero, nos próximos seis anos, conseguir respeitar mais meu primogênito. Estar mais sensível às suas necessidades. Não exigir dele a perfeição, pois sei que a perfeição é inalcançável. Contar mais vezes até 10 antes de fazer uma crítica, afinal percebo que ele se esforça genuinamente para não me decepcionar. Desejo me colocar mais vezes no seu lugar, ser apoio para transpor obstáculos, ser meio para que ele se desenvolva e descubra a que veio nesta vida.

Talvez eu não consiga realizar todos os meus propósitos nos próximos seis anos. Talvez eu devesse ter falado nas próximas seis semanas, ou seis dias... O fato é que sou uma mãe em construção. E, nos últimos anos fiz coisas que eu mesma jamais imaginei. O que me impulsiona a acreditar ser possível lapidar uma versão melhorada do que sou hoje. E, elencar meus defeitos já é um despertar significativo para uma possível mudança, ou não?

6 comentários:

Claudia Palaci disse...

Paula,Paula...você conseguiu um poucas linhas explanar o que eu sinto e não consigo descrever. Obrigada. Ficou mais fácil para entender o turbilhão que acontece em mim neste momento. bjo

Paula Bertoli disse...

Clau, estou aqui sempre que precisar dividir angústias e trivialidades maternas. Beijo!

Iviane Susi disse...

Genuinamente lindo...

Iviane Susi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iviane Susi disse...
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Iviane Susi disse...
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