quinta-feira, 3 de julho de 2014

Amor de irmãos

Tenho 3 irmãos e posso dizer que ninguém no mundo será capaz de receber o sentimento que entrego a eles. Não preciso ensina-los, não preciso alimentá-los, não preciso conquista-los. Mas preciso saber que estão bem, que alguém os está ensinando, alimentando e conquistando. Conviver com nossas diferenças e nossas personalidades nunca foi fácil, mas foi uma baita escola pra nós 4. Primeiras brigas, primeiros carinhos, primeiros ciúmes, primeiras disputas, primeiros compartilhamentos, primeiras rodadas de negociação, primeiras provas de resistência física e mental. Em mim eles viram que o mundo ia além de um par de cuecas, uma bola, chutes e pontapés. Neles eu vi que os homens tem cérebro e coração. O que eles não tem é útero, tpm e tititi. 

Em casa tivemos laboratórios riquíssimos. Eu, a mais velha, convivi – embora não sem protestar  – com garotos de todas as idades a partir dos 3 anos. Eu tinha 3 anos e 6 meses quando nasceu o Rafael, ainda sou capaz de lembrar da minha decepção. Como assim alguém novo que veio tomar o espaço que era todinho meu? Meu reinado durou exatos 42 meses. Muito pouco, não acham? Eu achei...

Daí, com 7 anos, nasceu o João, esse já foi um pouco mais fácil de engolir. Minha lembrança dele bebê é que tínhamos que fazer uma orquestra com as panelas da casa na hora das refeições para que ele comesse.  Sempre foi magrinho, e nosso pai, pelas costas da nossa mãe, o chantageava com doces para que comesse mais!

Quando achamos que a família já estava com um tamanho legal, eu com 10 anos, Rafael com 6,5, João com 3, chega o Rodolfo. Todo mundo ficou assustado, mamãe já tinha feito laqueadura. Como assim?  Chegou pra mostrar que não somos donos do nosso destino. E que vivemos em estado de constante impermanência. Até mesmo no que diz respeito a planejamento familiar em pleno século 21! Lembro muito do Rodolfo na cozinha, batendo bolo na batedeira ainda de fraldas. Falando em fraldas, tenho memórias fresquinhas dos varais cheios de fralda de pano, da minha mãe fervendo as fraldas branquinhas num caldeirão que exalava um cheiro doce de coco... Ahh, e lembro que a dona Sônia colocava um ovo crú na sua mamadeira. Eca!

Relembrando tudo isso, nunca achei que eu seria capaz de ter um filho só. Isso até o Artur nascer, 2008. De 2008 em diante meu instinto de sobrevivência falou mais alto e passei a dizer pra mim mesma que um filho era mais do que suficiente, quem tem amigos tem irmãos de coração e  laços de sangue não fazem a menor diferença... E blá, blá, blá! Começou a minha terapia reversa.

Passados dois anos, 2010, o Artur começou a perceber como se constituíam as famílias e que algumas crianças não viviam sozinhas, como ele, mas com outras crianças, seus irmãos! E começaram os questionamentos lá em casa. Eu sempre conseguindo me manter firme. “Irmãos são completamente dispensáveis!” Mas ele aprendeu a argumentar comigo, e ficou bom nisso o danadinho. Em 2011 começamos, eu e o maridão, a considerar a possibilidade de aumentar a família. Tudo pelo Artur, porque nós estávamos completamente completos com um filho.

Em 2012 engravidei do Francisco e adivinha quem foi a criatura mais feliz do universo com a notícia? O Artur, lógico! Vibrou todos os dias, quando fomos fazer o ultrassom para ver o sexo ele sentenciou: “pode olhar aí, mas já vou avisando que é menino, é o meu irmão”. O médico perguntou o que mais ele revelaria depois disso. Rimos bastante!

Claro que, como eu, ele sentiu ter perdido o trono aos 5 anos. Mas é incrível como ele lidou melhor com isso do que eu. Sim, ele quer atenção quando estou tentando ninar o Francisco, sim, ele bate portas quando o irmão dorme, sim, ele grita em momentos inoportunos. Mas ele se derrete pelo irmão com uma sinceridade absurda! Quando o Francisco aprende uma coisa nova, ele é o primeiro a exclamar “olha mãe, que fofo!”. E o Francisco retribui à altura com sorrisos, abraços, beijos e gracinhas que são exclusividade do Artur.

Eu, claro, assisto a tudo isso com um sentimento de gratidão imenso. Como é bom observar o amor se multiplicar diante dos olhos com tanta naturalidade! 


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