terça-feira, 28 de outubro de 2014

O que nós ganhamos na escola Waldorf


O Artur é um garoto muito sensível, eu sempre falo isso. Sensível como toda criança deve ser, com um tantinho de sensibilidade extra injetada em sua alma em algum momento, eu sinto assim. Isso é difícil pra caramba de digerir. Vivemos a era da impaciência e sensibilidade é vista por mim, e pela maioria das pessoas, como frescura. Quem quer ter um filho fresco? Eu não!

Mas eu tenho um filho extra-sensível e tenho que conviver com isso. A televisão afeta sua regulagem interna, o ambiente afeta seu humor, os amigos afetam seu jeito de ser, a comida pode adoçar ou azedar completamente seu dia, a iluminação da casa interfere em seu ânimo. Sabe aquela esponjinha que toda criança pequena é? Que pega as coisas no ar? Mas que depois vai passando, vai endurecendo, vai ganhando armaduras? No Artur as armaduras ainda não apareceram.  Ele é afetado bem no meio do peito por minhas oscilações de humor e tudo o mais que o cerca.

Com a escola não podia ser diferente.

Mudamos em julho, então tenho três meses de observação para dividir com vocês. Vale dizer que saímos de uma escola que julgávamos bem legal, construtivista, alternativa aos padrões convencionais. Lá as crianças voltam para casa com a roupa suja e os trabalhos expostos nos corredores são feitos pelos alunos mesmo! Por mais absurdo que possa parecer, conheço escolas onde os trabalhos expostos como sendo dos alunos são “acabados” pelos professores. A escola que deixamos tinha a proposta de valorizar o indivíduo, não instigar a competição, frear o consumismo, desvalorizar a ânsia de chegar na frente. Eis que o Artur, mesmo assim, se comparava aos outros, queria ser melhor que os colegas e pedia para comprar tudo o que pudesse ver ou imaginar. E isso me entristecia, mas eu me resignava.

Agora, na escola nova, não me prometeram nada. Claro que eu me meti a estudar e conhecer por conta própria o que era esta tal de pedagogia Waldorf antes de tomar a decisão de mudar de escola. Mas, chegando lá, não ouvi um ruído sobre proposta pedagógica ou valores. Nada.

As coisas estão simplesmente acontecendo. Meu pequeno consumista sumiu. Não houve mais pedido de adquirir coisa alguma. Caixas de papelão estão sendo aproveitadas como nunca. Os brinquedos que viviam esquecidos no fundo das caixas ganharam vida e movimento. Não ouvi mais frases como “mãe, este tênis está muito velho, se eu for assim para a escola fulaninho vai rir de mim”. O cenário está muito diferente. Também não ouço mais comparações de espécie alguma. Bem pelo contrário, ouço coisas como: “mãe, cada um tem seu valor”. Fico espantada e grata!

Na escola Waldorf não temos muitas das coisas que tínhamos antes, na outra escola, e sentimos falta, principalmente dos amigos. Mas ganhamos amigos novos, ganhamos simplicidade verdadeira, ganhamos despretensão, ganhamos calma, respeito. Ganhamos também um ritmo novo, embalado por muita brincadeira, música e um tantinho de histórias.

Conhecemos o Kântele, um instrumento musical de som delicadíssimo e de fácil manuseio. O Artur, que já tinha um ouvido musical afiado, estreitou sua relação com a música por meio dele. O Francisco ( 1 ano e meio) arrisca umas melodias também. Eu, superando o medo do ridículo da minha falta de talento musical, dou vida a algumas histórias com o auxílio do seu som. E o Maurício aproveita sua habilidade musical para afinar o instrumento para nós!

Ganhamos um menino de seis anos que não parece um adulto em miniatura. Sentimos que conseguimos devolver um pouco da infância para nosso primogênito. Ele não se preocupa mais tanto com bolsa de valores, cotação do dólar, aquecimento global, pobreza extrema. Sim, ele se preocupava muito com isso!


Ganhamos um pouco mais de serenidade infantil para atravessar esta ponte. Vamos chegar ao outro lado, basta pisar firme, um pé após o outro.

Um comentário:

Sonia Bertoli disse...

Obrigada filha por me mostrar
essa Pedagogia Waldorf, quanto mais entendo mais me encanto!
Essa pedagogia é maravilhosa porque respeita o ser humano em todas as fases, do jeitinho de cada um. bj.