quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Encontros fortuitos são presentes da vida


Ainda não eram 6h da manhã, chamei o táxi pelo app “easy táxi” e desci para a portaria do prédio. Junto comigo, chegou o carro. O taxista, muito animado, perguntou se eu viajo sempre. Eu, com um “quê” de tristeza, disse que mais do que gostaria. Ele, não satisfeito, insistiu na conversa e quis saber o porquê. Acabei falando que tenho 2 filhos e que hoje não vou vê-los acordados, pois estava saindo de casa antes de amanhecer e voltaria apenas após eles já estarem dormindo. Ele, de imediato, me disse que admira muito as mulheres, que ele não conseguiria dar conta disso!

No trajeto até o aeroporto, que é longo, ele me contou que tem uma filha de três anos. Que a esposa deu um intervalo na vida profissional até a garotinha ter 1 ano e 8 meses e que a escolha da escolinha foi um processo difícil. Fiquei surpresa com o relato de que ele e a esposa consideram a educação infantil mais importante que o ensino superior. E, por isto, optaram por colocar a menina numa escola que é muito cara para o padrão financeiro da família. Me contou rapidamente os malabarismos que ele faz no orçamento doméstico para conseguir arcar com a tal “escola dos sonhos”. E finalizou: minha filha está tão bem ficando com a mãe no período da manhã e frequentando a escola no período da tarde que nem penso em fazer algo diferente disso. Tudo o que eu fizer de adaptação para manter este arranjo será insignificante, ele disse com firmeza.
Não sei se por ter dormido pouco, por estar me sentindo culpada de ter saído sem me despedir das crianças, ou por questões existenciais, mas... Achei tão sincero o depoimento dele que tive vontade de chorar no táxi. Mas, a autocritica fez sua parte e dei conta, segurei as lágrimas!
Já no avião, fiquei pensando no número de pessoas que eu conheço que trabalham engravatadas, em salas enormes, com paredes repletas de diplomas, que não entenderam o que o motorista do táxi tinha entendido. São tantos com este perfil que eu acabei perdendo a conta.
Eu acredito firmemente que o jardim de infância tem importância igual ou superior à educação superior. É simples, na primeira infância (até os 7 anos) são formados os alicerces da vida deste indivíduo. Se esta fundação for mal feita – seja por carência física, afetiva, alimentar, etc – este edifício não se sustentará.
Ao longo da vida, tive oportunidade de conviver com pessoas que não foram bem atendidas na primeira infância. E as marcas nas suas personalidades, mesmo após anos de psicanálise, não desaparecem. São pessoas que, muitas vezes tem habilidades técnicas incríveis, mas com habilidades comportamentais extremamente deficitárias. Isso é tão comum que tenho certeza que quem criar um indicador para medir, nas entrevistas admissionais, como foram os primeiros sete anos de vida dos profissionais que almejam uma vaga, ficará muito rico.
Desde que assumi cargos de gestão, venho me deparando com desafios impensáveis de comportamento humano. Todos eles, se analisados na lupa, vem da primeira infância.


E eu nem perguntei o nome do taxista. A garotinha, sua filha, chama Ana, tem um rosto doce, cabelos com cachos delicados cor de mel e um sorriso tímido. Ao menos foi o que vi na foto de celular que ele, orgulhosamente, me mostrou.

Um comentário:

Sonia Bertoli disse...


Como diria minha sábia mãe -"A vida ensina" Olha quanta coisa vc aprendeu com esse cara! Eu concordo totalmente com ele e se vc topar com ele de novo fala que esse é o melhor investimento que ele pode fazer. Lindos os dois, vc e ele.Bjs.